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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Subjetividade e adoecimento: algumas reflexões


Mariana Rodrigues Ferreira - 2008

 PACIENTE E A SUBJETIVIDADE

É muito importante que o paciente possa falar sobre os pensamentos que o preocupam, sobre as fantasias criadas referente à própria morte. No entanto, a família não está preparada para enfrentar a idéia de que um ente querido possa vir a falecer de uma hora para outra, assumindo então, a postura de negar tal possibilidade. Cabe por tanto, ao psicólogo permitir que essa fala surja. Chiattone (1998), em um caso clínico, observa a seguinte situação:

“A paciente, percebendo o perigo de morte iminente, passou a apresentar intensa ansiedade de abandono e separação; mas notando que essas atitudes determinavam rejeição e profunda decepção aos pais, passou a reprimir seus medos, numa tentativa desesperada de não perder a atenção dos pais e de protegê-los, garantindo a proximidade física às custas de isolamento afetivo.”

Este caso nos faz refletir sobre a importância do trabalho do psicólogo, no momento em que proporciona ao paciente a oportunidade de falar sobre a sua doença, sobre o que pensa a esse respeito e assim, exteriorizar os seus medos em relação à morte, pois como nos diz Mattos:

“Não é pouco freqüente as expectativas dos pacientes cirúrgicos transcenderem aos aspectos puramente médicos da situação. Imiscuída ao sofrimento físico, faz-se presente a realidade psíquica do paciente dando uma tonalidade específica aos fatos que se lhe apresentam.”
           
É fundamental também, que o paciente seja informado, mesmo que minimamente, sobre a sua doença e os procedimentos utilizados para combatê-la, pois se tentam ludibriá-lo quando pergunta o que tem, logo perceberá que estão lhe escondendo algo. Além do mais, o paciente aceitará melhor os tratamentos mais dolorosos se souber da real situação de sua saúde e estiver disposto a enfrentá-los. A esperança e o desejo em relação à vida podem existir mesmo quando o paciente sabe da gravidade da sua situação, pois são internos ao indivíduo.
A MORTE DE UM FAMILIAR

         A família do paciente terminal enfrenta um momento de intenso sofrimento e, por isso, precisa também ser assistida pelo psicólogo. Em alguns casos inclusive, dificulta o tratamento do doente e a forma como enfrenta a sua doença. Assim nos mostra Chiattone (1998):

“Durante o período, apesar dos esforços redobrados da equipe de saúde, os familiares da paciente assumiram drasticamente uma postura de negação da gravidade da doença, privilegiando uma relação “protetora” e contribuindo para antecipar a morte da criança em vida.”
           
            Este relato nos mostra um caso típico em que a família recusa-se a aceitar a morte de um familiar, abafando os sentimentos que possam surgir. A pretexto de assumir uma postura otimista em lugar de pessimista, que estaria relacionada à aceitação do fato natural de que a pessoa realmente pode vir a morrer em breve, acaba-se gerando ainda mais ansiedade ao paciente e aos próprios familiares.
Mesmo após a morte do enfermo, ou principalmente nesse momento, é importante que, em alguns casos, os seus familiares sejam acompanhados pela equipe de psicologia, para que possam completar as fases naturais no processo de luto.

O PROFISSIONAL DE SAÚDE

Os profissionais da área de saúde costumam enfrentar a morte de um paciente de forma a abafar seus sentimentos de dor. Como conseqüência, são taxados de insensíveis ao sofrimento alheio.
Com o intuito de evitar o próprio sofrimento, muitos médicos mantém um distanciamento dos pacientes em estado terminal, pois sabemos que, quanto mais investe-se em algo, maior será a dor de sua perda.
A morte de um paciente suscita vários sentimentos no médico, como sensação de impotência diante da morte do outro e da própria morte, já que diante da morte do outro o sujeito se dá conta da própria finitude.
Uma outra questão difícil de ser enfrentada pelo médico é a de ter que informar ao paciente em estado grave a sua condição orgânica, pois ao realizar tal tarefa estará diante da expressão do sofrimento de quem sabe que irá morrer. A realidade é que o médico não sabe lidar com demonstrações de dor e sofrimento, principalmente daquelas advindas da consciência da própria morte.

E O PSICÓLOGO?

Faz-se necessário ao psicólogo não absorver a falta de esperança que, por vezes assombra os outros profissionais de saúde e que tanto influencia no cuidado com o paciente. A notícia da iminência da morte de um paciente não deve ser fator que impossibilite a atuação profissional na área da saúde. O trabalho do psicólogo deve possibilitar algum ganho ao paciente, que já vem sofrendo tantas perdas como, a sua saúde, sua liberdade, seu amigos,... O paciente precisa ser respeitado pela equipe de saúde, na qual insere-se o psicólogo. O paciente sem perspectivas precisa ter ao menos uma morte digna, com o máximo de aceio possível e o mínimo de dor.
Sabendo-se que o hospital é um lugar no qual ocorre o isolamento do doente, torna-se este um fator a ser trabalhado pelo psicólogo para que afete o mínimo possível no processo de recuperação do paciente. Segundo Campos (1995):

“O Hospital tem a função de separar o indivíduo de sua família.[Além disso] o indivíduo fica à disposição das normas e procedimentos do Hospital, assim como à autonomia, tomada de  decisões e poder de profissionais que ali atuam.”

O psicólogo não trabalha com a cura orgânica, mas deve auxiliar o enfermo a enfrentar a sua dor psíquica, que é ampliada pelo fato de se estar doente. Esse profissional deve estar disposto a construir um tipo de atuação diferenciada do discurso médico, que privilegia o orgânico em detrimento do psíquico. Deve então, trabalhar no sentido de possibilitar o surgimento de uma demanda e de um discurso que auxilie o sujeito a lidar melhor com o seu sofrimento. Discurso este produzido pelo próprio paciente.
Em relação à subjetividade de cada enfermo, nos alerta Mattos:

“É importante atentar para o fato de que cada sujeito imprime em seu adoecer as marcas de sua singularidade (historicidade), quer no tocante às possibilidades de enfrentamento da situação, quer em relação às limitações que se acirram nesse momento.”



BIBLIOGRAFIA

CAMPOS, T.C.P., Psicologia Hospitalar: A atuação do psicólogo em hospitais, São Paulo: EPU, 2003, (págs.41-51)
MATTOS, P.R., O psicólogo e o hospital: trabalho ou ilusão?, 1999 – uff.br
MATTOS, P.R; ROCHA, M.S.,O ato médico e a subjetividade, Lab. Psicopatologia Fundamental, Psicanálise e Psicossomática, UFF, sem data, circulação interna
MOURA, M.D.; Psicanálise e Hospital; Rio de Janeiro: Revinter; 2000 ; 2ª edição
REVISTA Brasileira de Educação Médica, O preparo para lidar com a morte na formação do profissional de medicina, RJ, v.26, nº 3, set./dez.2002
REVISTA Ciência e ProfissãoO crescimento dos cuidados paliativos, pp.18 e 19 – Diálogos – nº 4 – dez./2006
REVISTA Psicologia Brasil, ano 4 – nº28 – fev./2006, pp. 24-27
REVISTA Psicologia Ciência e Profissão,Conversando sobre a morte e o morrer na área da deficiência, pp.120-131, 2007
ROCHA, M.S., Reflexões sobre a clínica em Hospital Geral: impasses e possibilidades, 2006
ROMANO, B.W.; Princípios para a prática da psicologia clínica em hospitais, São Paulo: Casa do psicólogo,1999
SIMONETTI, A., Manual de psicologia hospitalar: o mapa da doença,São Paulo: Casa do psicólogo, 2004, (págs. 130-155)

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